a ouvir isto:




enquanto lia isto no facebook do Julio Machado Vaz:

E por Vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira, in 'Matura Idade'


não foi de propósito mas ligaram muito bem.

your memory's unlocked but mine is locked*




* descobri que a minha miserável memória tem mais bloqueios daqueles que julgava. ao ver o primeiro episódio da nova temporada da Guerra dos Tronos (curioso que no inglês é game e na tradução para português é guerra, mas isso fica para outra posta de pescada), tive de fazer um grande esforço para recolocar as personagens no ponto onde ficaram na temporada anterior. bem, do que importa: a Arya continua em grande estilo a dizimar gente. às dezenas. agora resta-me recordar o caminho que percorreu para chegar a tal obra. ah, e a música acima é muito boa, tal como todas as que já ouvi desta banda. de certa forma, tudo neste post faz sentido: things I don't need (com a devida diferença de jogos aplicados e respectivas estratégias).

feeling good

não é de todo estranho este feeling good num conto (?) tão trágico. a autodeterminação e resiliência mesmo quando parece não haver espaço para nada. isto — e mais quantas coisas —, em cenários, planos, caracterização, luzes, ... tudo fabuloso.



carry on

já não me acagaço quando esta máquina resolve por-me em sobressalto: quando pára por segundos ou, ao invés, acelera em autoestradas onde jamais conseguirei ir por via certa.

(enquanto o tenho por tão incerto, por mim, por elas — as minhas loved ones —, o bonito, muito bonito, do que outras mãos fazem. a darem-lhe a forma que as palavras engasgam.)





www.francisbaker.com/to-carry-on



inspire / inspira, expira com um suspiro

um suspiro dos bons, não sendo sequer dos que se vendem - dos muito docinhos mas artificiais com os seus trezentos quilos de açúcar refinado e sem requinte nas ancas -, este é de inspiração.


Designing the Chapel began in the late 1940s. Matisse, already in his late seventies, was recovering from surgery for intestinal cancer and had nearly died.

dia zero

doze de julho, o dia zero. não sem valor próprio mas sim de recomeço. um ponto de partida para os dias que se seguem. pequenos recomeços que não são de esvaziamento dos que os antecederam. pelo contrário: olhar para o passado com um já chega e ser tempo de mais qualquer coisa. é o objectivo que se desdobra em outros mais pequenos e um de cada vez para que a tarefa seja possível. um - que podia ser qualquer outro -, voltar a ler. conseguir chegar à página dez com muitas putas pelo meio e sorrir por parecer que estou a ouvir o autor a falar e não a lê-lo. do tema, ainda doloroso - a violência - no entanto, a doer menos do que previa. talvez já comece a ser mesmo passado.

***


it's alright if you don't know how to do it
come sit down here
talk to me
Lena Muniz

{ ontem comentava com uma amiga que me sinto só a sobreviver, que não tenho espaço para viver. até nas coisas mais simples. apetece-me muito ficar em posição fetal, não me mexer com medo que até o movimento de respirar mexa com alguém e faça merda. }

***

“só porque tenho quase a certeza que vais gostar da imagem do álbum



e gostei, claro. não fosse a minha colecção de corações nas mais variadas formas para as semioses que a criatividade quiser. já agora a música também é boa. 

***

haja música a aconchegar esta disposição.
continuando no meu mundo.

ontem, ao sair do trabalho, decidi-me por um desvio de horas antes de regressar a casa. depois de sair da Covilhã em direcção a Unhais da Serra, passo por uma das zonas mais bonitas deste interior à mão. paro a meio caminho, em Cortes do Meio, para uma ida à água. era capaz de viver ali. gostava de viver por ali. ou noutra aldeia qualquer enfiada numa destas encostas tão bonitas onde parece que o tempo tem outro ritmo. sou mulher da aldeia. não percebo porque investi num apartamento na cidade pequena. agora, nem num futuro próximo, terei possibilidade de mudanças. não é grave. podia estar em Lisboa e ser uma profunda infeliz (ainda mais) no meio do trânsito e de prédios a mais.

talvez seja uma alma velha e provinciana. quero o tempo dos dias lento, quero o aborrecimento de não ouvir carros, quero não ter de lidar com gente agitada no stress matinal, diário. quero as ruas da aldeia para as miúdas brincarem na rua, nas quintas, entrarem em casa para jantar com a melhor sujidade, das mãos na terra.

e agora vou trabalhar. enfiada no openspace que odeio (não percebo esta cultura moderna dos espaços tecnológicos abertos, com gente a mais). o rabo colado à cadeira durante, pelo menos sete horas (hoje, provavelmente, mais).
quando estou triste (jesus, tantas vezes, é normal de normalizado pela média?) balanceio entre a música que acompanha o ritmo natural ou forço umas batidas mais resistentes e uns up, up girl. não é bem o dia...  já ouvi esta uma boa dezena de vezes, colada aos sensores, com pequenos intervalos do Yet Again. yes, again the Slow Life.




penso estar a fazer as coisas diferentes, a melhorar, a não deixar de arriscar e termina exactamente como sempre. abre-se um novo fosso e sinto-me a perder pessoas. invade-me novamente uma grande tristeza, com a única diferença de que agora já não me deixa angustiada. apenas e unicamente triste. é uma aceitação sem retorno. procuro outras vias de me fazer sentir, de não me ir morrendo enquanto perco.

***

agora na varanda com o portátil no colo a musicar o ambiente e uma mini preta na mão. vejo a noite a cair, deixando de ver o fumo que chega até aqui, mas a manter o cheiro que foi de morte. sinto-me pequenina, egoísta, fechada no meu mundo.