se por estes dias só tiverem tempo para ver um filme que seja o Florida Project

aqueles putos... dava um oscar a cada um. são tão genuínos, criativos, resilientes e vivos. dava outro oscar ao Sean Baker, por mais uma vez nos trazer uma obra tão realista, sem recorrer ao drama excessivo, deixando que as histórias se contem por si.


 


[r.nashe]

mas

mas é pai. e pai é pai.
mas é mãe. e mãe é mãe.

nestas afirmações parece estar contido que todo o nascer de é ser cuidado por. naturalmente inerente ao processo de criação, o desvelo. com sorte, altruísta. mas só encerram em si o desejo que assim seja. que no prolongamento das palavras se torne verdade, que a vida seja harmoniosa em família. e uma confrontação que a semântica sem magia pode ser profundamente dolorosa. pai, não é pai e mãe, não é mãe. esquecendo a biologia, mas a relembrar que precisamos de identidade, de raízes. que nos construímos também com essas referências. e se elas existem completamente deformadas?

o meu pai é a pessoa de quem menos gosto na família. há mágoa, assim como há desejo que mude (como as compreendo). há, também, alguma aceitação por soma de tantas desilusões. à mãe, neste caso, cabe-lhe ser a mãe é mãe, no seu todo, ainda que ela própria também ande à procura da sua identidade e questionando quantas vezes conseguimos criar novas raízes e firmar porto seguro?




quase todas as manhãs, a caminho do trabalho, cruzo-me com uma senhora dos seus setenta anos. cara simpática e doce, cabelo arranjado, costas direitas, roupa colorida e o seu carrinho de compras. àquela hora já vem da praça, levando consigo legumes e frutas frescas da época que utilizará nas refeições do dia, sem precisar de guardar nada no frigorífico. imagino-a a cozinhar com prazer, sem a urgência de horários a cumprir que não seja o da sua ida diária à praça. imagino-a. nunca troquei uma palavra com ela, não sei como se chama, não sei onde vive, com quem vive, como vive. quem sabe quando entra por casa encontra o tormento e a ida à praça seja a sua pausa. ou a sua obrigação ditada por outros. não o creio pelo ar que tem. mas é o meu olhar, que pode ser apenas nada.

numa semana soube de duas histórias cruéis sobre duas crianças de seis anos, com as quais também me cruzo quase todos os dias.vejo-as uns dias aos saltos, outros dias em birra, outros dias com sono, outros dias. a uma delas foi dada à custódia total à mãe depois de se descobrir que o pai via pornografia e se masturbava à frente dela. a outra levou um enxerto de porrada da mãe, que incluiu ser pontapeada, num fim de tarde à porta da escola.

hoje conheci uma mulher que dormia - salvo seja - com um burgesso e a ameaça de uma arma. ali na almofada ao lado.

garanto que não ando à procura destas histórias. chegam-me aos ouvidos sem aviso e deixam-me cada vez mais sem capacidade de articular grande coisa. a dimensão de conhecer as  pessoas - estas pessoas -, de serem mais do que acontecimentos lidos ou ouvidos de alguém que conhece alguém, que conhece alguém, longínquo o suficiente para não criar uma ligação tão estreita.

preciso estar mais atenta com quem me cruzo sem conhecer e sem querer conhecer. um certo paliativo para intervalar o que conheço.

hoje voltei a sentir-me muito cansada.
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deixei a minha mais nova adormecer no sofá. agora mesmo, está deitada ao meu lado no sofá, num sono tranquilo. a mais velha está na cama dela, talvez tenha adormecido outra vez com um livro que acaba por deixar cair e amanhã vá novamente refilar porque não marcou a página. vou lá dar-lhe um beijo daqui a pouco.

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na segunda-feira talvez tente fotografar a minha velhota do carrinho de compras.
na segunda-feita talvez contacte a cpcj.
até segunda-feira não quero que me contem mais histórias. só as estórias da viagem à lua da minha mais nova e as bds de colagens da minha mais velha. ali pelo meio talvez encaixe um filme de ficção científica, do espaço e mais além, com naves intergaláticas, os bons e os maus, os assim-assim, talvez uma princesa-heroína.
but if I fall?
but if you fly?
but if I fall?

if you fall I'll be there
— the ground



a six-part series about becoming a mother




vi há pouco tempo estes vídeos, que deixaram alguns ecos. o maior é o espaço necessário para cada um de nós e a nossa definição, sem invasões que criem ruído naquilo que muitas vezes é já titânico. por outro lado, conhecer histórias que se assemelham, por pouco ou muito que seja, às nossas conforta-nos e afasta uma certa solidão que se sente nas nossas escolhas e consequências.

(voltei a tirar do armário a capa de super-o-que-for-preciso)

daquilo que mais se retira da história de Sísifo: o pedregulho. que é, assaz vezes, um calhau. de gente também, no seu substantivo.

uns mais evidentes, um descanso para as expectativas. hélas, que ainda assim não retira os danos.


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diria que os homens que agora se sentem acossados e argumentam medos injustiçados em flirts e galanteios já antes não eram grande merda. a diferença é que agora (espero que cada vez mais ) sejam mais merdosos, medrosos e fiquem de bico calado. e mãos quietas.

aos outros nada é preciso dizer. já o sabem.
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acho que gosto demasiado do Joan Cornellà *